segunda-feira, 30 de março de 2015

Lei 10.639/03

A Lei 10.639/03 torna obrigatório o ensino da história africana, afro-brasileira e indígena. Esta lei é sem dúvida um grande avanço e de enorme importância. A história da África deve ser ensinada com a mesma frequência e aprofundamento que é dado ao ensino da história europeia, pois ambas são de igual importância para se compreender não só a história do Brasil, mas a história geral. A história geral sem a história da África está incompleta, porque nenhum povo faz história isoladamente, mas em conjunto com outros povos; às vezes através da guerra e da dominação, outras vezes através do comércio e das diversas formas de relações e alianças internacionais.

por Eliabe Vidal via Guest Post para o Portal Geledés
Muito se fala da influência da Europa sobre a África, – geralmente de forma negativa, como na escravidão e no imperialismo. É de suma importância mostrar como a Europa subdesenvolveu a África – como as invasões, o colonialismo e o imperialismo levaram à África ao estado atual de pobreza e dependência estrangeira para que não se incorra no risco de tornar o subdesenvolvimento africano em algo natural, algo que sempre foi assim. Contudo, é de igual importância que se fale sobre a influência que a África pré-colonial teve sobre a Europa, da importância do Egito para a formação da civilização ocidental.
Comumente, por exemplo, confundem-se termos como “mouro” e “árabe”, talvez por causa da religião (islâmica), tornando a história dos mouros uma história branca, quando muitos dos mouros vieram não só do norte da África, como também da África subsaariana, a exemplo dos Almorávidas, a segunda dinastia moura a governar a Espanha, a qual se origina de membros da etnia Znaga (da qual se acredita derivar o nome Senegal).
Quando à história do negro no Brasil, a sua presença é apagada, exceto em relação à escravidão, porém durante muito tempo no Brasil colonial, a população preta excedia a população branca, sendo assim presumível sua participação nos movimentos históricos de forma igualmente intensa. É preciso ressaltar a presença do negro da construção das nossas grandes cidades históricas. Os monumentos históricos – incluindo igrejas, ruas, casas, etc. – que hoje admiramos foram muitas vezes construídos pelas mãos negras dos africanos que foram forçosamente trazidos a este país. Esta história frequentemente dá lugar às histórias dos donos das casas grandes, que nunca realizaram o trabalho árduo que garantiu a riqueza das quais seus descendentes até hoje se privilegiam.
Sobre o índio, ainda ecoa o pensamento do século XIX, até mesmo em círculos universitários, perpetuando a ideia do índio como selvagem, a qual foi apenas uma forma que o colonizador inventou para justificar a opressão dos mesmos, da mesma forma como propuseram que o negro lhe era inferior, incapaz de construir civilização. Qualquer evidência de civilização na África era logo atribuída à influência estrangeira.
O sistema educacional brasileiro ainda mostra o europeu como modelo de humanidade e civilização. Ao silenciarem-se acerca das contribuições dos povos de cor para a civilização mundial, perpetuam-se os mitos sobre a sua aparente inferioridade. A sub-representação dos povos não-brancos na educação serve para perpetuar a noção do branco como norma, como padrão de ser humano.
Portanto, devemos lutar não só para que o ensino da história destes povos seja obrigatório na educação básica, mas também nos cursos de graduação em história no Brasil. A história da África é disciplina optativa ou ausente nos currículos de várias faculdades em todo o Brasil. Para que o professor de história possa ensinar a história africana, afro-brasileira e indígena, ele deve ser capacitado para tal durante a sua formação acadêmica. Portanto, a inclusão da história da África como obrigatória nas grades curriculares de todas as universidades do país é uma necessidade urgente.
30/3/2015Geledés Instituto da Mulher Negra


Leia a matéria completa em: Lei 10.639/03 - Geledés 
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quinta-feira, 19 de março de 2015

Trabalho e Presença Negra na Construção de Brasília

Lunde Braghini Júnior
Da Ascom Semidh 
A Secretaria de Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semidh) promove, nesta sexta (20), às 16h, em parceria com o Arquivo Público do DF (ArPDF), a abertura da exposição “Trabalho e Presença Negra na Construção de Brasília”, no Salão Branco do Palácio do Buriti. A visitação será franqueada ao público a partir da segunda (23).
O evento, que terá a presença de representantes da Semidh, do ArPDF e de outros órgãos do GDF, além de convidados, marca o aniversário de 30 anos do Arquivo Público, comemorado em 14 de março, e a passagem do 21 de Março, Dia Internacional pela Eliminação da Desigualdade Racial.
"A grandiosidade arquitetônica de Brasília ganhou concretude igualmente pela bravura de tantos trabalhadores negros e suas famílias, que vêm a ser a memória da ancestralidade africana de tamanha evidência na constituição da identidade nacional", diz a secretária-adjunta de Políticas para a Igualdade Racial da Semidh, Vera Lúcia Santana Araújo.
A exposição conta com 20 painéis que mostram a participação da população negra no surgimento da nova capital. A concepção visual é do artista plástico brasiliense Paulo Athaíde Cavalcante. Ao passear entre as telas, o visitante vai descobrir detalhes dessa marcante presença, como a participação no dia a dia da construção da cidade de descendentes de quilombolas (escravos refugiados em quilombos).
O 21 de Março – A data celebra a jornada de luta dos negros e negras sul-africanos que, em 1960, enfrentaram a repressão policial, durante manifestação contra o apartheid, na cidade de Shaperville. O protesto contra a Lei do Passe, que colocava obstáculos para a comunidade negra circular, teve um saldo de 69 mortos e duas centenas de feridos. Seis depois, a ONU, em reunião realizada em Brasília, com a presença de representantes de 29 países, confirmou o 21 de março como marco internacional para o combate ao racismo.
Ascom Semidh
3961-1782 e 3425-4779

Juventude Negra Brasileira: Chacinas, torturas, extermínio e encarceramento. Vamos enfrentar!

Chacinas, tortura, extermínio e encarceramento em massa da juventude negra e de periferia é um problema endêmico da nossa sociedade.
É verdade que o Brasil avançou muito nos últimos 12 anos, mas o combate à pobreza e à redução das desigualdades não foram capazes de enfrentar uma cultura de violência instituída que tem recorte social, geracional, cor e território.
O despreparo das forças de polícia, a falta de acesso à justiça e à violação de direitos são temas que precisam ser encarados com firmeza. Será necessário por fim aos autos de resistência com a aprovação do PL nº 4.471/2012, que põe fim aos autos de resistência, abrindo inquéritos para apurar os casos que envolvem letalidade na ação policia, - um instrumento arcaico que autoriza a execução de civis sem investigação e reforçando uma cultura de impunidade. Sem inteligência e investigação rigorosa dos homicídios no Brasil não é possível avançarmos.
Casos recentes como os da Bahia, Rio de Janeiro e neste final de semana em São Paulo devem sensibilizar o Estado e a sociedade por respostas rápidas e efetivas.
Foi por isso que a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) criaram o Plano Juventude Viva. Mais do que nunca, é hora de fortalecê-lo e colocá-lo como prioridade neste segundo mandato da Presidenta Dilma, em parceria com estados e municípios.
A integração com o Ministério da Justiça (MJ) e Secretaria de Direitos Humanos (SDH) compõem uma agenda estrutural, assim como políticas públicas importantes que ampliam os direitos no campo da educação, desenvolvimento social, trabalho e renda, cultura, saúde e esporte.
As estratégias de resistência, luta e organização das juventudes periféricas e negras devem ser incorporadas pelo Estado como temas centrais para enfrentar esse desafio.
Na Secretaria Nacional de Juventude temos noção do tamanho do problema e encaramos o tema como prioridade absoluta.
Toda a solidariedade aos familiares e amigos das vítimas!

Gabriel Medina
Secretário Nacional de Juventude
http://juventude.gov.br/juventudeviva/inicial/juventude-negra-brasileira-chacinas-torturas-exterminio-e-encarceramento.-vamos-enfrentar#.VQsIcnVdXzM

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Professor faz lista com 360 termos racistas

          Fotos: Acervo Pessoal:
Incomodado com a quantidade de palavras preconceituosas utilizadas por seus alunos, o professor de biologia Luiz Henrique Rosa, da Escola Municipal Herbert Moses, na Zona Norte do Rio, pediu para que eles escrevessem os termos pejorativos que usavam. O resultado foi uma lista com mais de 600 palavras, sendo 360 delas de cunho racista. A discussão em sala de aula deu origem ao projeto interdisciplinar "Qual é a graça". Em reportagem ao UOL, Rosa disse que após quatro anos de projeto houve redução do bullying e das brigas entre alunos

29 de Maio de 2014 às 19:41

Espelho, Espelho Meu


terça-feira, 10 de junho de 2014

O Desempenho dos Cotistas no ENEM - comparando as notas de corte do SISU

Luiz Augusto Campos

João Feres Júnior

Verônica Toste Daflon

Texto de discussão GEMAA:  

O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (IESP-Uerj), tem o prazer de trazer a público o texto de discussão nº 4 "O Desempenho dos Cotistas no ENEM: comparando as notas de corte do SISU".

O texto analisa e compara os padrões de notas obtidas no ENEM pelos estudantes que se candidataram às cotas nas instituições públicas de ensino superior com aqueles que optaram pelas vagas de ampla concorrência via Sistema de Seleção Unificada (SISU). Os dados do SISU indicam que os temores em relação ao desempenho dos cotistas no ENEM são superestimados e que o desempenho dos cotistas é, de modo geral, próximo do desempenho dos não-cotistas. Ainda que tais diferenças variem de acordo com os diferentes grupos beneficiados pelas cotas, as notas de corte dos cotistas costumam ficar entre dois e sete pontos percentuais abaixo das notas de corte dos não-cotistas. Ao que tudo indica, o sistema de apostas e rodadas adotado pelo SISU contribui para que cotistas maximizem suas escolhas em função de suas notas.

Embora pequenas, essas diferenças de desempenho indicam ainda que as cotas para egressos de escola pública que são pretos, pardos ou indígenas e/ou possuem baixa renda são mais necessárias e prementes que a cota para egressos de escola pública, independentemente da cor ou renda. Os dados sugerem que cotas apenas para oriundos de escolas públicas não seriam suficientes para beneficiar estudantes pretos, pardos e indígenas e/ou de baixa renda, ao contrário do que costuma ser dito no debate público.

Por fim, a dinâmica das notas de corte revelou uma desfuncionalidade do sistema de cotas regulado pela lei 12.771 de 2012. Em 11% dos cursos, a cota não está apenas funcionando como um piso, mas também como um teto para a inclusão de egressos de escola pública, membros de famílias com baixa renda e não-brancos. Em alguns casos, o desempenho desses grupos supera substantivamente o desempenho dos não-cotistas. Mas apesar disso, a presença deles nos cursos fica restrita à cota determinada pela lei.

Por essa razão, assinala-se a urgência da introdução de mecanismos capazes de impedir que isso ocorra. Isso pode ser feito de forma razoavelmente simples. Basta garantir que os cotistas que ficaram abaixo da nota de corte das cotas em cada curso sejam também considerados para a ampla concorrência. Assim, se sua nota for maior do que a nota de corte da ampla concorrência, eles seriam admitidos, aumentando assim o número de estudantes oriundos de escola pública e pretos e pardos e indígenas. Ademais, esse procedimento garantiria que as melhores notas são melhor aproveitadas.

A presente análise coloca um aparente paradoxo. Por um lado, constatamos que a diferença das notas de corte de cotistas e não-cotistas é a relativamente pequena, o que pode dar a impressão que as cotas não estão sendo efetivas em produzir inclusão, afinal os beneficiados são quase tão bem sucedidos no ENEM como os candidatos da ampla concorrência. Por outro lado, nossos estudos mostram que a lei 12.771 está em avançado estágio de implantação, em alguns estados já se aproximando do limite de reservas especificados pela lei, ou seja, parece estar havendo de fato inclusão.

A única explicação capaz de resolver esse problema, evitando assim a perplexidade do paradoxo, é a de que a operação simultânea do SISU sob o regime da Lei de Cotas permite que a política funcione de maneira ótima, maximizando o mérito e a inclusão. Assim, entram os melhores possíveis (daí a pequena diferença de notas) e ainda assim são incluídos os percentuais de reserva cheios para cada grupo de beneficiários.

Para acessar e fazer download do texto, visite o site do GEMAA:
http://uerj.us4.list-manage.com/track/click?u=48f664d641889a824759d32e1&id=147e189940&e=49e6c2b6ab

"O desempenho dos cotistas é, de modo geral, próximo do desempenho dos não-cotistas".


"Cotas apenas para oriundos de escolas públicas não seriam suficientes para beneficiar estudantes pretos, pardos e indígenas e/ou de baixa renda".


"A operação simultânea do SISU sob o regime da Lei de Cotas permite que a política funcione de maneira ótima, maximizando o mérito e a inclusão. Assim, entram os melhores possíveis (daí a pequena diferença de notas) e ainda assim são incluídos os percentuais de reserva cheios para cada grupo de beneficiários".

 




sexta-feira, 23 de maio de 2014

SEDF promove fórum sobre Ensino Religioso

                                  
   
SEDF promove fórum sobre Ensino Religioso Fotos: Aquilino Bouzan
Professores da rede pública de ensino se encontraram no auditório do Museu da República, para discutir o tema “Ressignificando as Práticas Pedagógicas do Ensino Religioso”
Nesta quinta-feira (22), das 14h às 17h, a Secretaria de Educação do Distrito Federal promoveu o Fórum “Ressignificando as Práticas Pedagógicas do Ensino Religioso”. A ação foi uma proposta pedagógica do Grupo de Trabalho do Ensino Religioso, da Coordenação de Educação em Diversidade, vinculada à Subsecretaria de Educação Básica da SEDF. O fórum teve como objetivo garantir o direito dos estudantes aos conhecimentos construídos historicamente pela humanidade.
O encontro apontou para a reflexão do assunto e apresentou o Caderno Temático como Componente Curricular Ensino Religioso da rede pública de ensino do DF. Para a coordenadora de Educação em Diversidade, Ana Marques, discussões como estas trazem à tona valores educacionais importantes. “Este debate, dá às escolas a possibilidade de assumir o papel de implementadora de educação religiosa na grade de ensino”.
A subsecretaria de Educação Básica, Edileuza Fernandes, avaliou o evento como norteador de práticas pedagógicas. “O tema despertou uma importante reflexão e propôs, por meio de um espaço de diálogo com professores, perceber as práticas pedagógicas que podem ser aplicadas durante as aulas de Ensino Religioso”.
Os participantes tiveram a oportunidade de compreender conceitos como laicidade, pluralidade e liberdade religiosa, em consonância com a legislação vigente, pautados nas especificidades e demandas locais. Entre os presentes, estavam os coordenadores de todas as Regionais de Ensino e representantes das unidades escolares.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ressignificando as práticas pedagógicas do Ensino Religioso

Senhores/as,

informamos que no dia 22 de maio , das 14h às 17h  ocorrerá no Museu da República o Fórum de Discussão "Ressignificando as práticas pedagógicas  do Ensino Religioso".

Objetivo:Refletir a importância das práticas pedagógicas do Ensino Religioso, a fim de garantir o direito dos/as estudantes terem acesso aos  conhecimentos construídos historicamente pela humanidade.

Público alvo:Diretor(a) e vice-diretor(a), Gerente de GREB, supervisor(a) pedagógico, professores(as) ,coordenador(a)  pedagógico , coordenador(a) intermediário de Educação em Direitos Humanos e Diversidade,organização estudantil e família dos(as) estudantes.

Atenciosamente,
Equipe SUBEB

terça-feira, 6 de maio de 2014

Semana de Educação para a Vida - Sugestões NPE




A Semana de Educação para Vida está próxima. Uma forma de deixar a programação ainda mais atrativa é promover visitas a museus. Atividades assim ampliam a visão da dimensão do patrimônio material e imaterial da Capital Federal, auxiliando o estudante a desenvolver uma relação de pertencimento, indispensável na constituição de uma cultura cidadã.

Quais são os principais museus de Brasília? Onde estão localizados e quais são os horários de funcionamento?
Os links abaixo respondem essas e outras perguntas e podem auxiliá-lo na elaboração do melhor roteiro:

Museus de Brasília.
www.museus.gov.br

A página do MPU traz um excelente texto sobre Patrimônio Cultural Imaterial que pode ser utilizado como apoio às atividades desenvolvidas relacionadas a temática.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Documentários - África

VALORES DA GUINÉ



Documentário

“Valores da Guiné” reúne o conhecimento sobre essa parte do continente que vem ganhando destaque: documentário registra as belezas naturais, a gastronomia típica e a cultura guineense.

A partir de relatos em primeira pessoa, vamos conhecer o país pelos olhos de seus filhos.

Acesse:
http://cinegroup.com.br/2013/10/values-of-guinea/

MAMA ÁFRICA


Documentário

Mostrar a África a partir do ponto de vista dos africanos.

Em vez de um continente marcado somente por miséria, guerra e tristeza, o documentário apresenta a alegria e o otimismo do povo africano. O diretor Alê Braga retratou as visões de homens e mulheres de Moçambique, Tanzânia, África do Sul, Senegal, Malaui, Marrocos, Suazilândia, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Gana.

Em suas narrativas, os personagens insistem na desconstrução dos estereótipos que condenam a África ao eterno estado de calamidade e mostram que por trás de problemas sociais, políticos e históricos existe uma realidade fascinante.

Acesse:
http://cinegroup.com.br/2013/10/mama-africa/

NOVA ÁFRICA


Factual | 26 episódios

A partir de relatos pessoais, temas como política, economia, cultura popular, tecnologia, meio ambiente, turismo e saúde serão abordados nos 26 episódios da série “Nova África”.

Com uma linguagem jornalística, objetiva e isenta, o programa parte do individual para o coletivo, do contemporâneo para o histórico.

Assim, visita o passado e o presente dos povos africanos e faz conexões com outros lugares – em especial, com o Brasil.


Acesse:
http://cinegroup.com.br/2013/10/nova-africa/


O Artesanato Africano

O Nova África desta semana desvenda o artesanato africano e mostra peças únicas e ricas em referências étnicas, religiosas e culturais. Veja como os artesãos imprimem em cada material produzido um pouco de suas crenças e tradições, e descubra que por trás de cada símbolo escondem-se séculos de história. A viagem começa no Gabão, onde são encontradas as máscaras Ngil, que fazem parte da tradição de várias etnias africanas nos rituais mágicos e de cura praticados por diversas tribos do continente. Quem fala sobre a importância cultural desta arte e de como ela influencia a sociedade é o artista, pintor e grande conhecedor do assunto, o gabonês Minkoe Mi-Nze. Além disso, veja como é a produção artesanal das máscaras Fang, e como da madeira bruta o homem extrai belos trabalhos vendidos a preços de ouro para países europeus e americanos. Já na Suazilândia, acompanhe a visita a uma fábrica que há 30 anos produz velas artesanais inspiradas na fauna africana, e conheça uma fábrica de cristais mundialmente conhecida por suas peças de vidro. De lá, o Nova África segue para o Malawi, onde a máscara Nyau é de extrema importância para povo Chewa. O chefe de tradições Njenwa explica como o ritual Gule Wankulu ajuda as pessoas a se manterem em sua cultura e a respeitar os seus valores. Segundo a tradição, o rito transforma homens em espíritos através das mascaras. Quem também fala da importância das máscaras Nyau e do Gule Wankulu na cultura Chewa é o ex-vice presidente do Malawi e conselheiro do rei Chewa, Justin Malewezi. Ele conta como suas tradições representam parte de uma África que resiste ao abandono de suas histórias e de suas referências. Por fim, o programa vai ao Marrocos para conhecer o sapateiro Daudí, que já recebeu diversos prêmios pelo trabalho que realiza com o couro e já viajou meio mundo expondo e vendendo bolsas e sapatos feitos à mão. http://tvbrasil.ebc.com.br/novaafrica/episodio/o-artesanato-africano.
Acesse:
http://tvbrasil.ebc.com.br/novaafrica/episodio/o-artesanato-africano

quinta-feira, 6 de março de 2014

Oscar Winner Lupita Nyong'o Speech on Black Beauty Essence Magazine Blac...

O DISCURSO DE LUPITA NYONG’O E A COR DA BELEZA VERDADEIRA Tradução do discurso de Lupita: “Eu queria aproveitar esta oportunidade para falar sobre beleza. Beleza negra. Beleza escura. Recebi uma carta de uma menina e gostaria de compartilhar uma pequena parte dela com vocês: “Querida Lupita, acredito que você é muito sortuda por ser negra e ter sucesso tão rapidamente em Hollywood. Estava quase comprando o creme ‘Dencia’s Whitenicious’ para clarear minha pele, quando você apareceu no mapa e me salvou”. Meu coração sangrou um pouco quando li estas palavras. Nunca poderia imaginar que meu primeiro emprego depois da escola seria tão poderoso e me tornaria numa imagem de esperança, da mesma forma que as mulheres de “A Cor Púrpura” foram para mim. Me lembro de uma época quando eu também me sentia feia. Eu assistia TV e só via brancas, fui provocada e insultada por ter a pele da cor da noite. Minha única prece para Deus, o milagreiro, era acordar com a pele clara. O dia amanheceria, eu estaria tão empolgada que me recusaria a me olhar até estar em frente a um espelho e ver pela primeira vez meu rosto claro. E todos os dias eu experimentava o mesmo desapontamento de ser tão negra como era no dia anterior. Tentei negociar com Deus: disse que pararia de roubar cubos de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; escutaria todas as palavras da minha mãe e nunca mais perderia meu moleton novamente se ele me fizesse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionou com minhas barganhas porque Ele nunca me escutou. Quando era adolescente, minha falta de amor próprio ficou pior, como acontece normamente nesta idade. Minha mãe me lembrava com frequência de como me achava bonita mas isso não me consolava. Ela é minha mãe, é claro que ela deveria me achar bonita. E então Alek Wek apareceu na cena internacional. Uma modelo famosa, escura como a noite, que estava em todas as passarelas e em todas as revistas, e todos estavam falando em como ela era linda. Até a Oprah disse que ela era bonita – e isso tornou tudo um fato. Eu não conseguia acreditar em como as pessoas estavam achando bonita uma mulher que se parecia tanto comigo. Minha pele sempre foi um obstáculo a ser superado, e de repente, Oprah estava me dizendo que não era. Foi desconcertante e eu queria rejeitar isto porque estava começando a curtir a sedução da inadequação. Mas uma flor não poderia deixar de florescer dentro de mim. Quando vi Alek, vi um reflexo de mim mesma que não poderia negar. Agora, tinha uma mola em meus pés e me sentia mais vista, mais apreciada pelos guardiões da beleza, mas a minha volta a preferência pelas peles claras continuava a mesma. Para os espectadores que eu achava que eram importantes, eu ainda era feia. Minha mãe diria novamente, “Você não pode comer beleza. Isto não te alimenta”. E essas palavras me atormentavam e me incomodavam, eu não as entendia realmente até finalmente descobrir que beleza não era algo que poderia adquirir ou consumir, era algo que eu simplesmente tinha que ser. E o que minha mãe queria dizer quando falava que não se pode comer beleza, era que não se pode confiar em como se aparenta para sustentar quem você é. Beleza fundamental é a compaixão com você mesmo e com aqueles ao seu redor. Este tipo de beleza infla o coração e encanta a alma. Foi o que deixou Patsey (sua personagem em 12 Anos de Escravidão) com problemas com seu mestre, mas foi também o que deixou sua história viva. Nós lembramos da beleza do seu espírito mesmo depois da beleza do seu corpo já ter desaparecido. Então, espero que minha presença em sua tela e nas revistas, posso levar você, garota, para uma jornada similar. Que você possa sentir a validação da sua beleza exterior, mas também leve a sério a importância da beleza interior. Esta beleza não tem cor.” ESTE POST ESTÁ ARMAZENADO NAS TAGS: LUPITA NYONG

domingo, 16 de fevereiro de 2014

6º Congresso Nacional do MST


Crianças do Movimento Sem Terra ocupam MEC



 (Ed Alves/CB/D.A Press)


Professores de áreas rurais e crianças Sem Terrinha ocuparam, na manhã de quarta-feira (12/2) o Ministério da Educação (MEC). Segundo informações da página do MST na internet, eles se manifestam contra o descaso com a educação e reivindicam a construção de 400 escolas nos assentamentos da reforma agrária.
 
As denúncias do movimento está o fechamento de 37 mil escolas no campo nos últimos 12 anos, a ausência de políticas de erradicação do analfabetismo e desvalorização dos profissionais da educação. As crianças produziram uma carta-manifesto.

Os integrantes do MST planejam uma marcha às 14h, que sairá do Ginásio Nilson Nelson em direção à Esplanada dos Ministérios. O objetivo é denunciar o que o MST considera como “estagnação da reforma agrária no Brasil”. Segundo o movimento, apenas 7.274 famílias foram assentadas em 2013, em contraponto com dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que indicam 30 mil assentamentos.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Seminário: 10 anos das Políticas de Promoção da Igualdade Racial

  


 A Lei 10.639/03 insere o Art. 26-A na LDB(Lei nº 9.394/96), que estabelece a obrigatoriedade do ensino da "História e Cultura Afro-Brasileira" no currículo das escolas públicas e particulares do pais.
Para tanto, a Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial e a Secretaria de Educação do Distrito Federal, promovem no dia 28/11, o Seminário: 10 anos das Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que acontecerá na EAPE, com abertura às 9h.   

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma proposta de exercício e de ética da escuta para quem não é vítima de racismo

 

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À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e Twitter, algumas discussões sobre racismo brasileiro que, apesar de sempre saudáveis, com frequência repetem uma dinâmica bastante comum no país. Aprendi, com os anos, que essa dinâmica tem que ser descrita com cuidado, para que a própria descrição não termine reforçando-a. Eu me refiro à dinâmica estudada pela Ana nesse texto magistral, Não é sobre você que devemos falar.
Trata-se de um dos maiores obstáculos que se enfrenta no combate ao racismo brasileiro, e ele pode ser resumido mais ou menos nos seguintes termos. Os brancos brasileiros tendemos a acreditar sinceramente, a crer piamente, a estar convictos, de que sabemos o que é o racismo sem jamais termos feito o exercício de escutar suas vítimas. A dinâmica se agrava pelo fato extraordinário e mui curioso, bastante próprio do Brasil, de que 86% dos brancos brasileiros afirmam não ter preconceito contra negros, mas nesse mesmíssimo universo, 92% reconhecem que existe racismo no Brasil.
Conclusão: o branco brasileiro se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, racismo ao qual, curiosamente, ele se crê imune.  É um caso inédito na história da sociologia. Ao mesmo tempo em que se crê imune, o branco brasileiro tende a ter, sobre o fenômeno, uma opinião bastante convicta, sem jamais ter tomado a iniciativa de tentar escutar um negro sobre o que é ser vítima de racismo. O branco não vê, nessa atitude, nenhuma herança racista.
O resultado é extraordinário: praticamente todos os brancos brasileiros reconhecem que há racismo no país, praticamente todos eles dizem que não são parte dele, e mantêm ambas opiniões sem jamais ter feito o esforço metódico, sistemático, de ouvir as vítimas do racismo. Não se costuma, no Brasil, ver a contradição entre essas três coisas. Coisa mais incrível ainda é que, ao serem perguntados se conhecem alguma pessoa racista, os entrevistados, em sua grande maioria, apontavam pais, irmãos, tios, amigos ou namorados. Ou seja, o ambiente ao redor está inteirinho contaminado de racismo, só eu que não!
O racismo brasileiro, que está em todos os lugares mas nunca em nós mesmos, produz, a partir daí, um segundo efeito bastante perverso: conversar sobre a discriminação racial, sobre a segregação e a exclusão raciais, e sobre a luta dos afrobrasileiros por cidadania tende a provocar, na maioria da população branca brasileira, um visível desconforto, um claríssimo mal estar, um mal disfarçado desejo de que a conversa termine logo. É como se o racismo não existisse até o momento em que passamos a conversar sobre ele.
No caso da discussão sobre as cotas, por exemplo, eu ouvi, algumas dezenas de vezes, a reclamação de brancos brasileiros de que não dava pra discutir aquilo porque não se sentiam confortáveis para se oporem a essas medidas de reparação sem serem chamados de racistas. A apreensão é bizarríssima, porque estou nesse debate há mais de uma década e jamais vi um ativista do movimento negro, um militante pró-cotas, um representante de organização afrobrasileira chamar alguém de racista porque se opõe às cotas. Na verdade, eu nunca vi essa acusação ser feita nesses termos “ah, se você é contra as cotas, você é racista”. Mas esse é o fantasma evocado uma e outra vez para terminar a conversa. Se algum marciano pousasse no Brasil, sem conhecimento do contexto, e escutasse tudo isso, ele provavelmente concluiria que o grande problema racial brasileiro é que muitos brancos bem-intencionados estão sendo chamados de racistas.
Vi gente de esquerda (esquerda mesmo) me escrever esta semana dizendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?” A angústia é genuína e o fato de que ela seja expressa assim, sem a menor consciência de que talvez ela tenha algo a ver com o racismo, só mostra como é longo o caminho que temos que andar. São 386 anos de escravidão. Décadas e décadas de violência policial racista e exclusão. 512 anos de discriminação. O movimento negro decidiu que queria essa vitória, essa conquista: as cotas. Elas foram implantadas. Os resultados são melhores do que os esperados: a evasão dos cotistas é menor que a dos não cotistas e suas notas são iguais ou melhores. O Supremo Tribunal Federal validou a constitucionalidade do projeto. E há branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escrevendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?”, como se ela fosse contraditória com outras formas, como se ela tivesse que ser a melhor para ser eficaz. Pior de tudo, o branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escreve isso e não vê na frase nenhuma herança racista.
O remédio para se combater esse fenômeno só pode ser um: desenvolver uma ética da escuta. E é com esse chamado que eu termino, para que você realize um exercício que venho realizando há duas décadas: se você é um branco brasileiro, seja lá de que origem for, que tal tentar procurar, na sua cidade, ao longo do próximos meses, cinquenta cidadãos afrobrasileiros? Pergunte a eles sobre sua experiência. Concentre-se em ouvir. É a experiência deles que importa aqui. Não é sobre você que devemos falar. Pergunte, por exemplo, como é andar de noite por uma metrópole brasileira sendo negro. Pergunte se ele/ela já foi objeto de revista policial arbitrária. Pergunte se eles já foram agredidos com epítetos raciais. Pergunte se já foram barrados em algum lugar sem razão aparente. Pergunte se já foram interpelados ou olhados como se não tivessem o direito de estar onde estão. Pergunte se já viram parentes serem humilhados por causa da cor da pele. Faça estas e outras muitas perguntas possíveis (por exemplo, sobre a experiência de somente ver garis, porteiros e flanelinhas parecidos com você, enquanto seus amigos brancos veem médicos, advogados e engenheiros parecidos com eles). Leve em conta, neste tipo de exercício, que se você, branco, estiver conversando com um negro que lhe é subordinado, há uma possibilidade de que, dependendo de como a pergunta for feita, ele diga o que você quer ou precisa ouvir, por falta de confiança, por falta de costume, pela dor e pela humilhação envolvidas, pelos anos todos em que foi quase proibido de falar sobre o assunto (já há, inclusive, estudos acadêmicos sobre esse fenômeno). Lembre-se que o racismo é assunto delicado, mesmo no interior de famílias negras, e a conversa sobre ele, envolvendo negros e brancos, uma grande novidade no Brasil. Paute sua sensibilidade a partir desses fatos.

Nosso racismo é um crime perfeito

 

O antropólogo Kabengele Munanga fala sobre o mito da democracia racial brasileira, a polêmica com Demétrio Magnoli e o papel da mídia e da educação no combate ao preconceito no país
Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria
Fórum – O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?
Kabengele – Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão… A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.
Revista Fórum – Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo…
Kabengele – Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.
Revista Fórum – Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?
Kabengele – Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
(Foto TV Brasil)
Fórum – Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele – Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, “negro, volta pra senzala”. Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum – Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?
Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.
Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?
Kabengele – É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. “Ah, é só mudar a escola pública.” Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, “porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil”. Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível.
Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.
Fórum – O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito…
Kabengele – O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: “Não vou alugar minha casa para um negro”. No Brasil, vai dizer: “Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar”. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “você já discriminou alguém?”. A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar… Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: “você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.
Revista Fórum – O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.
Kabengele – Faz parte desse imaginário. O que está por trás dessa ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.
Fórum – É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: “por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco”, como se fosse a mesma coisa.
Kabengele – É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.
Fórum – O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele – Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro… Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?
Fórum – Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?
Kabengele – Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.
Fórum – Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele – O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.
Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele – A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.