segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DECRETO Nº 7.352, DE 4 DE NOVEMBRO DE 2010. Dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA.


DECRETO Nº 7.352, DE 4 DE NOVEMBRO DE 2010
DOU 05.11.2010

Dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na
Reforma Agrária - PRONERA.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, incisos IV e
VI, alínea "a", da Constituição, e tendo em vista o disposto na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996, e no art. 33 da Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009,
DECRETA:
Art. 1º A política de educação do campo destina-se  à ampliação e qualificação da oferta de
educação básica e superior às populações do campo,  e será desenvolvida pela União em
regime de colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, de acordo com as
diretrizes e metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação e o disposto neste Decreto.
§ 1º Para os efeitos deste Decreto, entende-se por:
I - populações do campo: os agricultores familiares, os extrativistas, os pescadores artesanais,
os ribeirinhos, os assentados e acampados da reforma agrária, os trabalhadores assalariados
rurais, os quilombolas, os caiçaras, os povos da floresta, os caboclos e outros que produzam
suas condições materiais de existência a partir do trabalho no meio rural; e
II - escola do campo: aquela situada em área rural, conforme definida pela Fundação Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, ou aquela situada em área urbana, desde que
atenda predominantemente a populações do campo.
§ 2º Serão consideradas do campo as turmas anexas vinculadas a escolas com sede em área
urbana, que funcionem nas condições especificadas no inciso II do § 1o.
§ 3º As escolas do campo e as turmas anexas deverão elaborar seu projeto político
pedagógico, na forma estabelecida pelo Conselho Nacional de Educação.
§ 4º A educação do campo concretizar-se-á mediante a oferta de formação inicial e continuada
de profissionais da educação, a garantia de condições de infraestrutura e transporte escolar,
bem como de materiais e livros didáticos, equipamentos, laboratórios, biblioteca e áreas de
lazer e desporto adequados ao projeto políticopedagógico e em conformidade com a realidade
local e a diversidade das populações do campo.
Art. 2º São princípios da educação do campo:
I - respeito à diversidade do campo em seus aspectos sociais, culturais, ambientais, políticos,
econômicos, de gênero, geracional e de raça e etnia;
II - incentivo à formulação de projetos político-pedagógicos específicos para as escolas do
campo, estimulando o desenvolvimento das unidades escolares como espaços públicos de
investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o desenvolvimento
social, economicamente justo e ambientalmente sustentável, em articulação com o mundo do
trabalho;
III - desenvolvimento de políticas de formação de profissionais da educação para o
atendimento da especificidade das escolas do campo, considerando-se as condições concretas
da produção e reprodução social da vida no campo; IV - valorização da identidade da escola do campo por meio de projetos pedagógicos com
conteúdos curriculares e metodologias adequadas às  reais necessidades dos alunos do
campo, bem como flexibilidade na organização escolar, incluindo adequação do calendário
escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; e
V - controle social da qualidade da educação escolar, mediante a efetiva participação da
comunidade e dos movimentos sociais do campo.
Art. 3º Caberá à União criar e implementar mecanismos que garantam a manutenção e o
desenvolvimento da educação do campo nas políticas públicas educacionais, com o objetivo de
superar as defasagens históricas de acesso à educação escolar pelas populações do campo,
visando em especial:
I - reduzir os indicadores de analfabetismo com a oferta de políticas de educação de jovens e
adultos, nas localidades onde vivem e trabalham, respeitando suas especificidades quanto aos
horários e calendário escolar;
II - fomentar educação básica na modalidade Educação de Jovens e Adultos, integrando
qualificação social e profissional ao ensino fundamental;
III - garantir o fornecimento de energia elétrica, água potável e saneamento básico, bem como
outras condições necessárias ao funcionamento das escolas do campo; e
IV - contribuir para a inclusão digital por meio da ampliação do acesso a computadores, à
conexão à rede mundial de computadores e a outras tecnologias digitais, beneficiando a
comunidade escolar e a população próxima às escolas do campo.
Parágrafo único. Aos Estados, Distrito Federal e Municípios que desenvolverem a educação do
campo em regime de colaboração com a União caberá criar e implementar mecanismos que
garantam sua manutenção e seu desenvolvimento nas respectivas esferas, de acordo com o
disposto neste Decreto.
Art. 4º A União, por meio do Ministério da Educação, prestará apoio técnico e financeiro aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios na implantação das seguintes ações voltadas à
ampliação e qualificação da oferta de educação básica e superior às populações do campo em
seus respectivos sistemas de ensino, sem prejuízo de outras que atendam aos objetivos
previstos neste Decreto:
I - oferta da educação infantil como primeira etapa da educação básica em creches e pré-
escolas do campo, promovendo o desenvolvimento integral de crianças de zero a cinco anos
de idade;
II - oferta da educação básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, com
qualificação social e profissional, articulada à promoção do desenvolvimento sustentável do
campo;
III - acesso à educação profissional e tecnológica, integrada, concomitante ou sucessiva ao
ensino médio, com perfis adequados às características socioeconômicas das regiões onde
será ofertada;
IV - acesso à educação superior, com prioridade para a formação de professores do campo;
V - construção, reforma, adequação e ampliação de escolas do campo, de acordo com critérios
de sustentabilidade e acessibilidade, respeitando as diversidades regionais, as características
das distintas faixas etárias e as necessidades do processo educativo; VI - formação inicial e continuada específica de professores que atendam às necessidades de
funcionamento da escola do campo;
VII - formação específica de gestores e profissionais da educação que atendam às
necessidades de funcionamento da escola do campo;
VIII - produção de recursos didáticos, pedagógicos, tecnológicos, culturais e literários que
atendam às especificidades formativas das populações do campo; e
IX - oferta de transporte escolar, respeitando as especificidades geográficas, culturais e sociais,
bem como os limites de idade e etapas escolares.
§ 1º A União alocará recursos para as ações destinadas à promoção da educação nas áreas
de reforma agrária, observada a disponibilidade orçamentária.
§ 2º Ato do Ministro de Estado da Educação disciplinará as condições, critérios e
procedimentos para apoio técnico e financeiro às ações de que trata este artigo.
Art. 5º A formação de professores para a educação do campo observará os princípios e
objetivos da Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação
Básica, conforme disposto no Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009, e será orientada, no
que couber, pelas diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação.
§ 1º Poderão ser adotadas metodologias de educação  a distância para garantir a adequada
formação de profissionais para a educação do campo.
§ 2º A formação de professores poderá ser feita concomitantemente à atuação profissional, de
acordo com metodologias adequadas, inclusive a pedagogia da alternância, e sem prejuízo de
outras que atendam às especificidades da educação do campo, e por meio de atividades de
ensino, pesquisa e extensão.
§ 3º As instituições públicas de ensino superior deverão incorporar nos projetos políticopedagógicos de seus cursos de licenciatura os processos de interação entre o campo e a
cidade e a organização dos espaços e tempos da formação, em consonância com as diretrizes
estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação.
Art. 6º Os recursos didáticos, pedagógicos, tecnológicos, culturais e literários destinados à
educação do campo deverão atender às especificidades e apresentar conteúdos relacionados
aos conhecimentos das populações do campo, considerando os saberes próprios das
comunidades, em diálogo com os saberes acadêmicos e a construção de propostas de
educação no campo contextualizadas.
Art. 7º No desenvolvimento e manutenção da política de educação do campo em seus sistemas
de ensino, sempre que o cumprimento do direito à educação escolar assim exigir, os entes
federados assegurarão:
I - organização e funcionamento de turmas formadas por alunos de diferentes idades e graus
de conhecimento de uma mesma etapa de ensino, especialmente nos anos iniciais do ensino
fundamental;
II - oferta de educação básica, sobretudo no ensino médio e nas etapas dos anos finais do
ensino fundamental, e de educação superior, de acordo com os princípios da metodologia da
pedagogia da alternância; e
III - organização do calendário escolar de acordo com as fases do ciclo produtivo e as
condições climáticas de cada região. Art. 8º Em cumprimento ao art. 12 da Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, os entes
federados garantirão alimentação escolar dos alunos de acordo com os hábitos alimentares do
contexto socioeconômico-cultural-tradicional predominante em que a escola está inserida.
Art. 9º O Ministério da Educação disciplinará os requisitos e os procedimentos para
apresentação, por parte dos Estados, Municípios e Distrito Federal, de demandas de apoio
técnico e financeiro suplementares para atendimento educacional das populações do campo,
atendidas no mínimo as seguintes condições:
I - o ente federado, no âmbito de suas responsabilidades, deverá prever no respectivo plano de
educação, diretrizes e metas para o desenvolvimento e a manutenção da educação do campo;
II - os Estados e o Distrito Federal, no âmbito de  suas Secretarias de Educação, deverão
contar com equipes técnico-pedagógicas específicas, com vistas à efetivação de políticas
públicas de educação do campo; e
III - os Estados e o Distrito Federal deverão constituir instâncias colegiadas, com participação
de representantes municipais, das organizações sociais do campo, das universidades públicas
e outras instituições afins, com vistas a colaborar com a formulação, implementação e
acompanhamento das políticas de educação do campo.
Parágrafo único. Ato do Ministro de Estado da Educação disporá sobre a instalação, a
composição e o funcionamento de comissão nacional de educação do campo, que deverá
articular-se com as instâncias colegiadas previstas no inciso III no acompanhamento do
desenvolvimento das ações a que se refere este Decreto.
Art. 10. O Ministério da Educação poderá realizar parcerias com outros órgãos e entidades da
administração pública para o desenvolvimento de ações conjuntas e para apoiar programas e
outras iniciativas no interesse da educação do campo, observadas as diretrizes fixadas neste
Decreto.
Art. 11. O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA, executado no
âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário pelo Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária - INCRA, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009,
integra a política de educação do campo.
Art. 12. Os objetivos do PRONERA são:
I - oferecer educação formal aos jovens e adultos beneficiários do Plano Nacional de Reforma
Agrária - PNRA, em todos os níveis de ensino;
II - melhorar as condições do acesso à educação do público do PNRA; e
III - proporcionar melhorias no desenvolvimento dos assentamentos rurais por meio da
qualificação do público do PNRA e dos profissionais que desenvolvem atividades educacionais
e técnicas nos assentamentos.
Art. 13. São beneficiários do PRONERA:
I - população jovem e adulta das famílias beneficiárias dos projetos de assentamento criados
ou reconhecidos pelo INCRA e do Programa Nacional de Crédito Fundiário - PNFC, de que
trata o § 1º do art. 1º do Decreto nº 6.672, de 2 de dezembro de 2008;
II - alunos de cursos de especialização promovidos pelo INCRA;
III - professores e educadores que exerçam atividades educacionais voltadas às famílias
beneficiárias; e IV - demais famílias cadastradas pelo INCRA.
Art. 14. O PRONERA compreende o apoio a projetos nas seguintes áreas:
I - alfabetização e escolarização de jovens e adultos no ensino fundamental;
II - formação profissional conjugada com o ensino de nível médio, por meio de cursos de
educação profissional de nível técnico, superior e  pós-graduação em diferentes áreas do
conhecimento;
III - capacitação e escolaridade de educadores;
IV - formação continuada e escolarização de professores de nível médio, na modalidade
normal, ou em nível superior, por meio de licenciaturas e de cursos de pós-graduação;
V - produção, edição e organização de materiais didáticopedagógicos necessários à execução
do PRONERA; e
VI - realização de estudos e pesquisas e promoção de seminários, debates e outras atividades
com o objetivo de subsidiar e fortalecer as atividades do PRONERA.
Parágrafo único. O INCRA celebrará contratos, convênios, termos de cooperação ou outros
instrumentos congêneres com instituições de ensino públicas e privadas sem fins lucrativos e
demais órgãos e entidades públicas para execução de projetos no âmbito do PRONERA.
Art. 15. Os projetos desenvolvidos no âmbito do PRONERA poderão prever a aplicação de
recursos para o custeio das atividades necessárias  à sua execução, conforme norma a ser
expedida pelo INCRA, nos termos da legislação vigente.
Art. 16. A gestão nacional do PRONERA cabe ao INCRA, que tem as seguintes atribuições:
I - coordenar e supervisionar os projetos executados no âmbito do Programa;
II - definir procedimentos e produzir manuais técnicos para as atividades relacionadas ao
Programa, aprovando-os em atos próprios no âmbito de sua competência ou propondo atos
normativos da competência do Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário; e
III - coordenar a Comissão Pedagógica Nacional de que trata o art. 17.
Art. 17. O PRONERA contará com uma Comissão Pedagógica Nacional, formada por
representantes da sociedade civil e do governo federal, com as seguintes finalidades:
I - orientar e definir as ações político-pedagógicas;
II - emitir parecer técnico e pedagógico sobre propostas de trabalho e projetos; e
III - acompanhar e avaliar os cursos implementados no âmbito do Programa.
§ 1º A composição e atribuições da Comissão Pedagógica Nacional serão disciplinadas pelo
Presidente do INCRA.
§ 2º A Comissão Pedagógica Nacional deverá contar com a participação de representantes,
entre outros, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, do Ministério da Educação e do
INCRA. Art. 18. As despesas da União com a política de educação do campo e com o PRONERA
correrão à conta das dotações orçamentárias anualmente consignadas, respectivamente, aos
Ministérios da Educação e do Desenvolvimento Agrário, observados os limites estipulados pelo
Poder Executivo, na forma da legislação orçamentária e financeira.
Art. 19. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 4 de novembro de 2010; 189º da Independência e 122º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Fernando Haddad Daniel Maia

DOU

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Darcy Ribeiro explica o que significa ser escravizado


A mais terrível de nossas heranças — Darcy Ribeiro

“Este texto é para quem não percebe a importância das cotas, das políticas de ação afirmativa, para reparar uma injustiça histórica. Às vezes penso que muitas pessoas não têm noção do que significa para um ser humano ser escravizado. As marcas que isso deixou, os traumas, e inclusive a absurda desvantagem em termos de ocupar um lugar digno na sociedade. Darcy Ribeiro explica
Com a regulamentação da Lei de Cotas, a jornalista da revista Carta Capital Cynara Menezes publicou em seu blog, Socialista Morena, texto do antropólogo e educador Darcy Ribeiro sobre a escravização dos negros e as conseqüências a eles impostas. Com a adoção de políticas afirmativas, o Brasil atua no centro da questão: incluir os excluídos na sociedade, colocado os negros em condição de igualdade com a tradicional “elite branca”.


Darcy Ribeiro explica o que significa ser escravizado

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Primeira Doutora Quilombola do Brasil


 Racismo é perverso’, diz a primeira Doutora Quilombola do Brasi


 A primeira doutora quilombola do Brasil acaba de tirar o título, na área de Educação, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Edimara Gonçalves Soares, professora da rede estadual de ensino, defendeu a tese “Educação escolar quilombola: quando a política pública diferenciada é indiferente” na terça-feira (28). Formada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos em uma comunidade quilombola, criada pelos bisavós dela, em Formigueiro, a 68 quilômetros de Santa Maria. A comunidade não tem nome e é formada por aproximadamente 60 famílias, que vivem do que plantam e criam.
Sempre crítica à escolarização dos remanescentes de quilombos, que são comunidades mais afastadas criadas por escravos que fugiram dos senhores de engenho, na época do Brasil Colonial, os sentimentos da nova doutora se confundem. “Eu tenho orgulho, sim. Mas é um orgulho que me faz refletir sobre o quanto a desigualdade, o preconceito, o racismo institucional são fenômenos perversos e que não são reconhecidos, dado o mito da democracia racial. Nós vivemos em um país da diversidade racial, que nós somos todos iguais… Só que nessas diversidades, as desigualdades não são reconhecidas, são dissolvidas”, refletiu Edimara Soares.

Para a professora, o título tem valor simbólico e concreto para o grupo que ela pertence. “O fato de escrever uma tese sobre a educação escolar quilombola, a partir de alguém que é quilombola, que é sujeito desta história, tem um significado singular de representação. Não é um estrangeiro dizendo como que é um quilombola, o que ele tem que fazer, como ele deveria ser. Não é o sujeito de fora narrando os nativos. É alguém de dentro do grupo que conta a sua própria trajetória e ao contar essa história, conta também a trajetória de muitos estudantes de muitas pessoas quilombolas”, explicou entusiasmada.
Edimara acredita que a dificuldade que ela teve que enfrentar para ter acesso à escola é a mesma vivida pelas atuais crianças que vivem em quilombos. Ela lembrou que precisava acordar às 4h30, caminhava em torno de uma hora até o ponto onde pegava o ônibus.
Ela contou ainda que, em casa, precisava colher bambu e fazer uma fogueira para iluminar livros e cadernos. “A gente não tinha luz elétrica, eu estudava com fogo de chão. Não podia ficar gastando vela ou querosene dos lampiões, porque a gente não tinha também dinheiro para comprar. Toda a trajetória de estudo é marcada por muita luta, muito sacrifício, por muita garra e determinação”. Ela confessou que nas Exatas não ia muito bem e por isso precisava estudar mais. Por outro lado, nas Humanas “era tranquilo”. Foi com a ajuda de uma família de Santa Maria que conseguiu completar o Ensino Médio e ingressar na universidade.
Edimara recordou que foi uma visita do colégio onde estudava à feira de cursos da UFSM que a fez decidir que queria entrar na universidade.  “No segundo ano do Ensino Médio eu tinha um norte. Queria entrar ali”.

Depois de desenvolver uma tese de doutorado, Edimara lamenta ao perceber que os obstáculos são praticamente os mesmos. “A minha história, quanto estudante negra quilombola, é semelhante e, em certas situações, idêntica à história de muitas crianças quilombolas que estão em fase escolar”, afirmou.
Segundo Edimara, as dificuldades são quase intransponíveis. “Às vezes não tem um número significativo [de alunos] para manter a escola, daí esta escola é fechada e essas crianças são enviadas para outro estabelecimento de ensino, distante da comunidade”, exemplificou. Para a professora, isso mostra que as nossas crianças quilombolas, até hoje, não tiveram ainda acesso a educação da forma que lhes é de direito. Ela pontuou ainda que normalmente essas crianças têm um período para estudar, porque chega um momento que deixam de ir ao colégio para trabalhar, para sobreviver.
Este e outros acontecimentos da rotina escolar das comunidades quilombolas do estado foram abordados e analisados na tese de Edimara, sob orientação da professora doutora Tânia Maria Baibich.
Ainda que o Paraná tenha sido pioneiro na aplicação de medidas específicas para este público, com o Departamento de Diversidade e o Núcleo de Educação das Relações Etnicorraciais e Afrodescendência (NEREA), ambos da Secretaria Estadual de Educação, a ação foi “inócua a despeito de todo o investimento e esforço que foi feito”.
Isso significa, como explicou a professora, que não se atingiu plenamente os objetivos inerentes à lei federal de 2003 que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Havia também o intuito de que os professores articulassem os conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas com o currículo escolar. “Esse é o princípio fundante da educação escolar quilombola”, destacou.
No estado, existem 42 escolas que atendem comunidades quilombolas, divididas em 11 municípios. Contudo, para que a lei fosse de fato cumprida, de acordo com Edimara, tópicos essenciais não foram considerados.
“Faltou uma articulação, efetiva, com as universidades, com as instituições formadoras. Faltou uma parceria com as comunidades quilombolas e também houve uma ausência de ações pedagógicas, de maneira sistemática e permanente, com os professores, no interior destas escolas. As ações foram pontuais, não foram ações sistemáticas”, explicou.  Para ela também faltaram investimentos em infraestrutura e em aspectos administrativos, inclusive, recursos financeiros. “É a fartura da falta. Faltam muitas coisas na dimensão de infraestrutura”, complementou.

Edimara reforçou que a universidade não prepara os acadêmicos, futuros professores, para trabalhar questões etnicorraciais e de diversidade. A doutora é clara ao dizer que os docentes não podem ser culpados pela falha na aplicação da proposta da Secretaria de Educação.
“Ninguém ensina, o que não sabe. Eles, nós não tivemos acesso a esses conhecimentos na formação inicial, enquanto professores, porque somos produtos de uma educação eurocêntrica, de um currículo monocultural, e não foram dadas as condições necessárias”.
Para que se vislumbre um cenário mais adequado na educação quilombola, Edimara sugere a resolução das problemáticas identificadas e a necessidade de se reconhecer que existe o racismo. “Eu preciso reconhecer a existência deste fenômeno, criar mecanismo para combatê-lo, porque ele está presente de forma muito contundente nas escolas dentro das comunidades quilombolas e nas escolas fora”, assegurou. Ela cita ainda aumento de verbas para aquisição de material e para formação dos docentes.
“Não é algo que vai ser de hoje para amanhã, demanda todo um esforço, uma vontade política e de investimento financeiro”, destacou.
As ações afirmativas
Edimara se diz favorável à lei sancionada na quarta-feira (29) pela presidente Dilma Rousseff que determina o sistema de cotas sociais nas universidades federais. De acordo com a lei, metade das vagas oferecidas é de ampla concorrência, já a outra metade será reservada por critério de cor, rede de ensino e renda familiar. As universidades terão quatro anos para se adaptarem. Atualmente, não existe cota social em 27 das 59 universidades federais. Além disso, apenas 25 delas possuem reserva de vagas ou sistema de bonificação para estudantes negros, pardos e indígenas.
“O fato de eu ser a primeira doutora quilombola do país mostra o quanto nosso país precisa investir no combate às desigualdades sociais. Ainda existe um abismo, principalmente, nas questões relacionadas a educação, ainda que os governos estadual e federal venham investindo em políticas afirmativas e inclusivas”, afirmou.
Edimara acrescentou que esta desigualdade é histórica e acumulada, desde 1888 quando foi abolida a escravidão no Brasil. “A liberdade veio, porém, sem medidas para integrar a população negra, sem que possibilitasse acesso social e educacional”, disse Edimara. Na avaliação dela, as cotas vêm para promover a igualdade de oportunidade.
“O objetivo maior da política afirmativa é combater e, possivelmente, eliminar o lastro de desigualdades sociais. Se tu fores fazer uma radiografia das pessoas que hoje estão nos cursos de mais prestigio na universidade, como Medicina, Arquitetura, Engenharia, Direito, dificilmente tu vais encontrar, na mesma proporção, negros e brancos”, argumentou.

Fonte: G1 PR

In: Observatório Quilombola - http://www.koinonia.org.br/oq/noticias_detalhes.asp?cod_noticia=11801&tit=Not%C3%ADcias

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Curso Gênero e Diversidade na Escola - UnB



A Faculdade de Educação da UnB está com inscrições abertas para o curso Gênero e Diversidade na Escola. O curso se insere na modalidade de formação continuada de profissionais da educação, tratando das temáticas de gênero, raça/etnia e orientação sexual, possibilitando aos professores/as condições de observar e introduzir nas suas reflexões e práticas pedagógicas as reflexões de gênero, bem como a construção de uma educação inclusiva e não sexista.
O curso terá duração de 200 horas, sendo 40 horas diretas e 160 horas na modalidade à distância. O período de inscrição vai do dia 22 de agosto ao dia 5 de setembro deste ano e serão oferecidas 150 vagas. O início do curso está previsto para a segunda quinzena de setembro. A ficha de inscrição e outras informações encontram-se no site da Faculdade de Educação: www.fe.unb.br ou no endereço eletrônico: gde2012.unb.inscricoes@gmail.com.



Os objetivos a serem alcançados pelo curso são:
  • Desenvolver a capacidade dos/as professores/as da Educação Básica da rede pública de compreender e posicionar-se diante das transformações políticas, econômicas e socioculturais que requerem o reconhecimento e o respeito à diversidade sociocultural do povo brasileiro e dos povos de todo o mundo – o reconhecimento de que negros e negras, índios e índias, mulheres e homossexuais, dentre outros grupos discriminados, devem ser respeitados/as em suas identidades, diferenças e especificidades, porque tal respeito é um direito social inalienável;
  • Contribuir para a formação de profissionais em educação, em especial professores da Educação Básica, capazes de produzir e estimular a produção dos alunos e de alunas nas diferentes situações do cotidiano escolar, de forma articulada à proposta pedagógica e a uma concepção interacionista de aprendizagem;
  • Elaborar propostas concretas para utilização dos acervos culturais existentes nos diferentes contextos escolares no desenvolvimento de atividades curriculares nas diferentes áreas do conhecimento;
  • Desenvolver estratégias de formação do professor pesquisador, de autoria e de leitura crítica no aproveitamento dos diferentes recursos pedagógicos, das diferentes mídias;
  • Incentivar a produção de materiais didáticos de apoio pelos próprios alunos do cursos e o intercâmbio de tais materiais e experiências bem sucedidas, (bem como dificuldades enfrentadas) entre os cursistas;
  • Contribuir para a promoção da inclusão digital através de conteúdos transformadores das culturas discriminatórias de gênero, racial étnica e de orientação sexual no país;

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prorrogação do prazo de inscrição na 3ª edição do Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos


A 3ª edição do Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos é uma iniciativa da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Ministério da Educação (MEC) e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), com o apoio da Fundação SM.O Prêmio tem como objetivo contribuir para a formação de uma cultura que defenda valores, atitudes e práticas sociais que respeitem os direitos dos cidadãos em todos os espaços da sociedade.Podem se inscrever instituições públicas e privadas de educação básica e superior, secretarias estaduais e municipais de educação e instituições de educação não formal. Os vencedores receberão um total de R$ 100 mil em prêmios.Inscrições abertas até 31 de agosto. 
Acesse o site:
www.educacaoemdireitoshumanos.org.br e faça a inscrição.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Milton Nascimento,Pena Branca e Xavantinho-Morro Velho




Morro VelhoMilton Nascimento
No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada

Filho do branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada, conta histórias prá moçada


Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará


Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada, já não brinca, mas trabalha.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

GOG, o poeta do rap: Carta à mãe África

Festival Afro-latinidades





A partir desta segunda-feira (23/7) começa a quinta edição do Festival da Mulher Afro-Latino-Americana. O festival, que segue até domingo (29), aborda, desde 2008, a questão racial, com recorte de gênero, buscando debates relacionados aos desafios atuais e ao resgate do histórico de lutas e resistência da mulher negra na América Latina e Caribe. 
Criado em 2008, o Afro-latinidades reúne na capital federal, seminários, debates, shows, feira de afro-negócios e homenagens às mulheres negras. Nessa trajetória de quatro anos, o festival debateu com políticos, artistas e articulações culturais, temas referentes às mulheres afro-brasileiras. Neste ano, o festival realiza parceria com o Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que dedica sua programação artística à África e América Latina.
O Festival Afro-latinidades promove a reflexão e o debate acerca de temática mais do que necessária para a cultura afro-brasileira: a juventude negra e a violência urbana.
A escolha do tema vem da necessidade de discutir os desafios enfrentados por essa parcela vulnerabilizada da sociedade que, infelizmente, constitui a principal vítima da violência urbana e tem sido alvo predileto dos homicidas e dos excessos policiais. No Brasil, a juventude negra encabeça o ranking dos que vivem em famílias consideradas pobres e recebem os salários mais baixos do mercado. Encabeçam, também, a lista dos desempregados, analfabetos, dos que abandonam a escola e dos que tê maior defasagem escolar.
Ainda serão temas de debates no Festival, a Diáspora Africana na América Latina e Caribe; Emprego e Renda; Saúde Integral da Mulher Negra; Cultura; Novas perspectivas para a militância feminista e os rumos do feminismo negro na América Latina; Identidade e Comunicação; Orientação Sexual e Identidade de Gênero; Educação e Racismo Ambiental na América Latina.
“Realizar o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, para nós, significa refletir o lugar da mulher afro-descendente no Brasil e os desafios da luta contra a pobreza e o racismo, aumentando, assim, as possibilidades de dar visibilidade as mulheres negras da América Latina e Caribe”, comenta a coordenadora geral do Latinidades, Jaqueline Fernandes. Para ela, os dados que levaram à realização do Latinidades sob o tema juvenil são impactantes. “A juventude negra encabeça a lista dos desempregados e dos que têm maior defasagem escolar”, justifica a coordenadora.
"Nosso país conta com cerca de 11,5 milhões de jovens negros entre 18 e 24 anos de idade, o que representa 6,6% da população. A taxa de analfabetismo é de 5,8%. Em média, os jovens negros têm dois anos a menos de estudo do que os brancos da mesma faixa etária: 7,5 anos e 9,4 anos, respectivamente. A comparação das taxas de escolarização é um indicador de como o sistema educacional brasileiro ainda tem muito o que fazer para combater as desigualdades raciais: a proporção de crianças no ensino fundamental é de 92,7% para negros e de 95% para brancos; no entanto, somente 4,4% dos negros, de 18 a 24 anos, chegam ao ensino superior; entre os brancos, esse percentual é de 16,6%”, destaca citando dados do artigo Juventude negra e exclusão radical, de Maria Aparecida Bento e Nathalie Beghin.
A programação será distribuída por vários locais do DF, como Varjão, Paranoá, Itapuã, Cidade Ocidental, Presídio Feminino Colméia, além de uma ação em São Paulo. O objetivo do Afro-latinidades 2012 é colocar redes, universidades, coletivos e movimentos em torno no debate do jovem negro, incluindo-se representantes da América Latina e do Caribe nas discussões. O festival também traz à Praça do Museu da República, em parceira com o Cena Contemporânea, uma programação musical destacando os sons afro-latinos contemporâneos".
Vale lembrar que o Festival é também para consolidar o Dia Internacional da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha, 25 de julho, criado em 1992. Um marco internacional da luta e da resistência da mulher negra.

O Festival está em sua 5ª edição e para conferir a programação e demais notícias a respeito e baixar a publicação livro Latinidades é só clicar no link: 
http://www.afrolatinas.com.br.

terça-feira, 10 de julho de 2012

3ª Edição do Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos


                3ª Edição do Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, lançado pelo Ministro Aloísio Mercadante no último dia 30 de maio.
                São 4 categorias: Secretarias de Educação, Escolas, Instituições de Ensino Superior e Organizações da Sociedade Civil/Associações/Movimentos Sociais.
                Nesta edição, será dada "Menção Honrosa" para experiências especificamente realizadas na área da Educação no Campo vinculada à justiça socioambiental.
                As inscrições  encerram-se no próximo dia 30 de julho.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

8º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero



O 8º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero consiste em concurso de redações, artigos científicos e projetos pedagógicos, dirigido a estudantes de Ensino Médio, Graduação, Pós-Graduação e Escolas da Educação Básica na área das relações de gênero, mulheres e feminismos, contemplando suas intercessões com as abordagens de classe social, geração, raça, etnia e 
sexualidade. 
Acesse o site:
http://igualdadedegenero.cnpq.br


segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Mestre sala dos Mares: Homenagem ao Almirante Negro João Candido


Algumas músicas se tornam mais interessantes quando se descobre a história por trás da canção. As musas, as inspirações, as circunstâncias em que uma música surgiu podem torná-la mais bonita. É o caso, sem sombra de dúvida, da canção "O mestre-sala dos mares", de João Bosco e Aldir Blanc, em 1975, em homenagem ao marinheiro João Cândido, conhecido como "O Almirante Negro", que liderou a "Revolta da Chibata", em 1910. 
Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, O Mestre-sala dos Mares. Homenagem ao Almirante Negro, João Cândido
Para quem não sabe, a Revolta da Chibata foi um movimento idealizado por Francisco Dias Martins, o "Mão Negra" e os cabos Gregório e Avelino, e depois liderado pelo cabo da Marinha João Cândido, o "Almirante negro",  semi-analfabeto, que se insurgia contra os desmandos na marinha: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais (chibatadas), que tinham sido reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.Por isso a revolta, iniciada em novembro de 1910, ficou conhecida como Revolta da Chibata.
Os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais não fossem suprimidos. Em Princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas  medidas que acabam com as chibatadas, bem como  um projeto que anistia os amotinados. 
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"Mas a anistia não durou dois dias. Em 28 de novembro, os marinheiros foram surpreendidos pela publicação do decreto número 8400, que autorizava demissões, por exclusão, dos praças do Corpo de Marinheiros Nacionais "cuja permanência se torne inconveniente à disciplina". O Governo traiu os revoltosos, que foram presos, perseguidos, e encaminhado para uma prisão subterrânea na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Quase todos morreram sufocados, pois a cela era subterrânea, sem ventilação e estava cheia de cal. Apenas João Cândido sobreviveu, juntamente com o soldano Naval João Avelino. João Cândido foi perseguido, considerado louco e morreu aos 89 anos, em 1969, quase no anonimato, como vendedor de peixes.
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No auge da ditadura militar, João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem ao "Almirante Negro". Numa entrevista, Aldir Blanc afirmou:  
"Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (...) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o "bonzinho", disse mais ou menos o seguinte:
 - Vocês não então entendendo... Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando...
- Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um "telefone" nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:
- O problema é essa história de negro, negro, negro..."
Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente "O Mestre-Sala dos Mares", saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo "Um herói, uma canção, um enredo - Noite do Navegante Negro", da Escola de Samba União da Ilha, em 1985.
Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, O Mestre-sala dos Mares. Homenagem ao Almirante Negro, João CândidoAldir Blanc e João Bosco
A música, para ser aprovada pela censura, sofreu várias modificações, que podem ser vistas na tabela ao lado, disponível originalmente http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html
Letra original: As palavras em vermelho foram censuradas, substituídas pelas que estão em azul
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro (feiticeiro)
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante (navegante) negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar (acenar) pelo mar com seu bloco de fragatas (na alegria das regatas)
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas (santos entre cantos e chibatas)
Inundando o coração de toda tripulação (do pessoal do porão)
Que a exemplo do marinheiro (feiticeiro) gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro (navegante negro)
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo
Fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html; http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/canhoes-chibata-433714.shtml

História do Brasil - Revolta da Chibata: Imagens do "Almirante Negro" e da Revolta da Chibata, com trilha musical de João Bosco e Aldir Blanc "O Mestre-sala dos Mares". Apresentada a letra original, censurada pela ditadura militar no Brasil.

D I R E I T O À C U LT U R A: Planejando atividade


                      in http://www.projetomemoria.art.br/JoaoCandido/downloads/down_guia_JC_site.pdf

Como mostra o Almanaque, mesmo vivendo em condições precárias, João Cândido alfabetizou-se e tornou-se leitor e sempre muito interessado em acompanhar os acontecimentos que se desenrolavam a sua volta.
As atividades sugeridas permitem que variados aspectos da cultura sejam abordados: a importância da cultura oral da comunidade; da reflexão; do desenvolvimento do senso crítico, inclusive em relação aos meios de comunicação, etc.

  A. T E M A S
Diferentes culturas, diferentes linguagens
Meios de comunicação

A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, proclamada pela UNESCO em 2002, estabelece, no Artigo 5º, que toda pessoa deve poder expressar-se, criar e difundir suas obras na língua que deseje e, em particular, na sua língua materna; toda pessoa tem o direito a uma educação e uma formação de qualidade que respeite plenamente sua identidade cultural; toda pessoa deve poder participar na vida cultural que escolha e exercer suas próprias práticas culturais, dentro dos limites que impõe o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais.

Alunos que não sabem ler
Em 2008, o Brasil ainda possui 2,4 milhões de analfabetos com idade entre 14 e 17 anos, dos quais 2,1 milhões (87%) frequentavam a escola no ano anterior. Esse número revela a realidade de estudantes que não sabem ler e escrever. Os dados são do IBGE (Síntese de Indicadores Sociais). Constata-se também que, entre os jovens de 21 anos, 8% dos negros estão nas universidades, cifra que corresponde a 24% entre os brancos da mesma idade.

B .   S U G E S T Õ E S   D E   A T I V I D A D E S
Diferentes culturas, diferentes linguagens

“O primeiro Censo Demográfico realizado no Brasil, em 1872, contou 10 milhões de habitantes, incluindo escravos e escravas. O analfabetismo estava presente em cerca de 80% da população. Mas isso não significava falta de cultura ou desinformação generalizada: a transmissão pela oralidade atravessava todos os setores sociais e as identidades culturais, mesmo quando não reconhecidas como tais, permitiam estratégias de resistência e sobrevivência.” (p. 6)

• Pesquisar e comparar o índice de analfabetismo entre brancos, negros e índios através da história. É importante destacar que a alfabetização também foi um mecanismo histórico de colonização cultural. Conversar com os alunos que hoje os povos indígenas aprendem a língua portuguesa para melhor lutar pelos seus direitos, além de utilizarem o alfabeto em seus idiomas, para preservar suas culturas e tradições.

• Refletir com os alunos a respeito de motivos que fizeram com que ainda existam pessoas não alfabetizadas em sua comunidade. Converse com os alunos sobre ações voltadas para a alfabetização de jovens e adultos, como, por exemplo, o programa Brasil Alfabetizado, do Governo .

“Os raros adultos que me deram a ler se retraíram diante da grandeza dos livros e me pouparam de perguntas sobre o que é que eu tinha entendido deles. A esses, claro, eu costumava falar de minhas leituras.” (PENNAC, D. Como Um Romance. 3.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 167).

A leitura é o momento em que o leitor se encontra com o texto de forma única, especial. Na sua leitura solitária, ele deve ter liberdade para interpretar de maneira pessoal o que está lendo.

• Pedir para os alunos comentarem o que gostam de conversar e, professor, proponha aos alunos recortar, de revistas e jornais, pequenos trechos de textos de assuntos que eles gostem, avisando-os que, em seguida, serão lidos por eles. Procure também refletir com os alunos a respeito do prazer de ler o que se gosta, estimulandoos para desenvolverem o hábito de buscar assuntos em textos de seus interesses.

• Conhecer a origem das palavras é compreender melhor seu significado. É ainda compreender que a linguagem é algo que está em constante transformação. Ao serJoão Cândido – A Luta pelos Direitos Humanos 15mos informados pelo Almanaque Histórico que, por exemplo, o vocábulo capital vem do latim capital e, que significa cabeça, e que República vem de Res pública (coisa pública), ampliamos nossa compreensão do uso dessas palavras. Identificar outras palavras em dicionário, cuja origem seja interessante conhecer para ampliar a compreensão de seu significado.

• Já a palavra almanaque, de origem árabe (al – manakh), se referia ao lugar onde os beduínos conversavam e trocavam informações sobre o dia-a-dia. No Brasil, em meados do século XIX, passou a ter como significado: publicação com calendário completo e com matérias recreativas e informativas. Propor aos alunos a criação de um almanaque da turma a partir de temas do interesse dos alunos.

Por  dentro  da  História  

“É bem doloroso para um país forte e altivo ter de sujeitar-se às imposições de 700 ou 800 negros e pardos que, senhores dos canhões, ameaçaram a Capital da República.”
(Fanfulla, jornal de São Paulo, em 1910).


No Brasil de antigamente
Vivia-se a lei do cão
O negro pobre não tinha
Direitos de cidadão
Privilégios não teria
Conceito ou cidadania
Liberdade ou posição...

E hoje só recordação
Deste herói negro ficou
Que a lei seca da chibata
Junto à marinha acabou
Os seus feitos e sua história
Todos guardamos em memória
A tua fibra e valor
(Trecho do cordel A Revolta da Chibata, de Jota Rodrigues). (p. 37)

•  Levar ou pedir para que os alunos levem à escola livros, cartas, jornais e revistas para que todos analisem as diferentes formas de texto, o tipo de vocabulário utilizado, a que faixa etária se destinam, bem como os valores e idéias veiculados.

•  Pedir aos alunos que, imaginando-se vivendo no Rio de Janeiro, na época da Revolta da Chibata, escrevam uma carta para um amigo que mora em outra cidade, relatando os últimos acontecimentos.

• Aproveitar a oportunidade para falar também sobre as diferentes maneiras que as pessoas têm de se comunicar. Por exemplo:
As pessoas com necessidades especiais, principalmente as que possuem deficiência auditiva, que se comunicam por meio da Língua de Sinais (LIBRAS).

Você sabia que...

Negrinho do Pastoreio é uma lenda tradicional do Rio Grande do Sul? De origem africana, fala de um estancieiro que mandou castigar seu escravo, um menino, porque havia deixado fugir um de seus cavalos. Após a surra, teve de sair à noite pelos campos para encontrar o animal. Enfrentou a escuridão com um toco de vela e uns pavios de fogo. Retornou para a fazenda sem o animal e, após ser novamente espancado, foi atirado, por ordem do fazendeiro, dentro de um formigueiro. No dia seguinte, para a surpresa de todos, o menino estava bem, vivo e feliz ao lado do animal perdido. Desde então, ficou sendo o “achador de coisas”. Basta fazer o pedido e acender um toquinho de vela para ele.


• Apresentar aos alunos uma foto de uma pintura ou escultura para que eles façam a sua análise. Pedir para os alunos comentarem suas opiniões e percepções. É importante destacar que as percepções e opiniões são individuais e devem ser respeitadas. É importante, também, estimular os alunos a compartilhar suas opiniões, tendo como princípio a garantia da livre expressão.

• Pedir para os alunos escolherem algo que apreciem: uma flor, uma concha, um quadro. Solicitar que observem atentamente e, em seguida, expressem por meio de cores e traços o que sentiram. É importante, também, estimular os alunos a compartilhar suas opiniões, tendo como princípio a garantia da livre expressão.

• A comunicação por meio da música: pedir para que os alunos levem para a aula letras de músicas que gostam. Analisar as letras dessas canções com eles. Do que tratam? Há rimas? Analisar com os alunos se houve, na turma, preferência por algum tema. Verificar que, na página 9 do Almanaque, há uma referência interessante ao chorinho. Destacar a importância da pluralidade musical do nosso país, por exemplo: forró, samba, fandango, catira, carimbó, etc.

Meios de comunicação

Os meios de comunicação sempre tiveram atuação política no Brasil? Isso ocorreu desde os primeiros jornais impressos no País, a partir de 1808 (ano da chegada da Corte portuguesa), como a Gazeta do Rio de Janeiro e o Correio Braziliense (editado em Londres). Os meios de comunicação não são totalmente imparciais e têm a tradição de interferir no destino de todos. Parte da imprensa desempenhou importante papel no processo de Independência, mas outros jornais da época eram contra o movimento. Na Abolição, ocorreu o mesmo: alguns jornais apoiavam a escravidão, outros a combatiam. Nos anos 1830, surgiram pequenos periódicos que discutiam a questão racial, entre eles O Homem de Cor, considerados precursores dos jornais abolicionistas que surgiram meio século depois.


Ao longo do Almanaque Histórico, há diversas referências ao papel da imprensa na formação da opinião pública.

• Propor que a turma se divida em grupos para elaborar um jornal que tenha uma linha favorável e outra desfavorável à Revolta da Chibata, liderada por João Cândido. Para isso, faça com que os alunos analisem inicialmente a composição dos jornais atuais: editorial, artigo, notícia, reportagem, entrevista, charge, quadrinhos, carta do leitor; e, a partir desses elementos, criem seus jornais. Poderão ser incluídas notícias referentes a outros acontecimentos do início do século XX (veja as referências à Reforma Pereira Passos, na página 16 do Almanaque Histórico).

• Fazer um levantamento com os alunos de seus sonhos de consumo. Em que medida a propaganda (em tevê, revistas, jornais, rádio) influencia e define esses sonhos de consumo?

• Combinar com os alunos que têm acesso à tevê de, no mesmo dia, observarem os diferentes programas (novela, intervalo comercial, noticiário ou desenho animado), procurando refletir sobre: como os meios de comunicação tratam a questão da diversidade humana (gênero, etnia, deficiência física, etc.)? Todos são apresentados da mesma forma? E as crianças e jovens, como são apresentados? Como os negros, os deficientes físicos, crianças e jovens são apresentados? Refletir com os alunos sobre suas percepções acerca da existência de pluralidade ou não da diversidade na tevê.

• O Almanaque Histórico nos conta que, em diversas ocasiões, jornalistas, artistas e escritores foram censurados quando se referiram a João Cândido e à Revolta da Chibata. Analisar com os alunos os momentos políticos em que a censura esteve mais acentuada no Brasil.